A importância dos hábitos de higiene na Educação Infantil

May 8, 2020

 

 

 

 

 

Momentos tão importantes como lavar as mãos e tomar banho ganham ainda mais importância em meio ao combate ao coronavírus

 

 

Hoje as nossas crianças estão em suas casas, mas não por opção própria. Nossos parques e tanques de areia estão vazios. Nossas salas, os pátios, quadras... espaços em que a infância era vivida, hoje são apenas lugares vazios. Ao olhar para o parque e ver o gira-gira parado e o pendular dos balanços ao sabor da brisa que os toca, sinto saudades das minhas crianças que gostam tanto desse ambiente.

 

Mesmo a distância, ensine hábitos de higiene às crianças

Fico triste ao olhar para os brinquedos na prateleira e pensar que eles não têm significado algum quando não estão ao alcance das crianças. Afinal, cada cantinho do nosso cotidiano é pensado para elas, que são o centro do nosso planejamento. Mas onde elas estão? Sendo cuidadas em suas casas por suas famílias e esperando que o professor as convide para regressarem a nossa rotina! Uma mãe até me ligou essa semana pedindo para conversar com sua menina sobre o que está acontecendo e que ela não “ficará em casa para sempre” (para a pequena Maria, “alguns dias” é quase uma eternidade).

 

Ao passar perto das torneiras onde as crianças lavam suas mãos, fiquei pensando em todo o tempo e conversa tidos em sala para incentivá-las a lavar suas mãos antes das refeições, após usarem o banheiro, depois de brincarem no parque etc.

Lavar as mãos! Talvez esse seja um dos hábitos mais importantes nesse momento. De tudo o que me esforcei para ensinar às crianças, lavar as mãos é o hábito mais importante de elas lembrarem agora. Lavar em cima da mão, entre os dedinhos e o antebraço, além de não colocar as mãos no chão ou nas paredes depois de terem se higienizado (eles sempre fazem isso rsrs).

Tudo isso faz parte de dimensões importantes do nosso trabalho com as crianças: o cuidar e o educar. Reconhecemos que essas ações são indissociáveis no trabalho com as crianças e no nosso contexto atual fica mais claro ainda explicitar essa indissociabilidade no ato de lavar as mãos. Ao cuidar das minhas crianças, sempre acompanhando-as nos momentos de higiene, lavando minhas mãos com elas, ensinando a usar o sabonete, enxaguando as mãos e secando-as com o papel toalha, não dissocio a ideia de que estou educando as crianças para hábitos de higiene capazes de prevenir várias doenças, entre elas a Covid-19.

 

Sem falar nos outros tantos assuntos que vem da prática. Eu me lembro de um ano em que eu conversei com as crianças sobre a importância de lavar as mãos como forma de eliminar vírus e bactérias e um menino me questionou: “mas porque eu quero matar as bactérias se elas são boas para gente? Eu tenho milhares de bactérias na barriga que ajudam na digestão! Eu vi num comercial! Os ‘lasquistosbacilos’!”. Ele quase disse “lactobacilos”, juro! :)

 

Eu, muito ingênuo, não esperava que a discussão fosse tão longe a ponto de precisar planejar discussões explicando o porquê de querer matar as tais bactérias ruins e o que são os tais lactobacilos. O cuidado de lavar as mãos desencadeou uma série de aprendizagens que foram além do eu havia planejado.

 

Não podemos, contudo, cair numa crença equivocada de que o “educar” seria algo direcionado ao campo cognitivo e o “cuidar” voltado aos hábitos em si. Quando eu trabalhei junto aos bebês, essa era uma diferenciação frequente e equivocada. Eu tinha comigo colegas monitoras de educação infantil que, equivocadamente, eram apelidadas de “cuidadoras” por se considerar como sua real função o “cuidar”, enquanto o meu papel de professor seria “educar”. Logo, eu não deveria trocar fraldas ou dar banho nos bebês e as monitoras não deveriam “planejar as atividades” dos pequenos.

Na verdade, ao planejar o banho ou a troca de fraldas estamos estabelecendo uma série de vínculos com bebês, além de vivenciar um momento que deve ser acolhedor e prazeroso de higiene do corpo. Nesse momento de troca, a criança precisa ser respeitada como ser humano que é, logo devemos conversar com ela durante todo processo com falas relacionadas ao ato da troca e que lhe permitam a participação: “Eu vou trocar a sua fralda, você pode me ajudar? Vamos até o banheiro”, “Posso tirar sua roupa para trocar sua fralda?”, “Agora vou tirar sua fralda suja. Você pode segurar a fralda limpa que vamos vestir daqui a pouco?”, “A água do banho está gostosa para você? Está quente ou fria?” etc. Tenho certeza que não só os bebês, mas qualquer ser humano gostaria de ser tratado assim.

 

O viés educacional ocorre até mesmo quando o momento da troca não segue esse tipo de rotina. Pense você, colega professor ou professora, no que os pequenos estão aprendendo quando a troca de fraldas ou o banho não considera princípios de uma formação humana e respeitosa? Apenas carregar o bebê no colo, levá-lo ao trocador e mudar sua fralda como um ato mecânico e submisso às vontades do adulto educa também para submissão, o desrespeito com o próprio corpo, cria sujeitos mais dependentes. Ensina erradamente que meu corpo pode estar submisso às vontades de outras pessoas, entre tantas outras abordagens que desrespeitam os bebês. Gostaria de vê-las totalmente excluídas da Educação Infantil.

 

O que gostaria de enfatizar com o exemplo da troca dos bebês é que seja para o desejado ou para o indesejado, estamos sempre cuidando e educando as crianças ao mesmo tempo e isso reforça a ideia de indissociabilidade entre cuidar e educar. Por isso é importante o docente planejar momentos de higiene e valorizar a formação dos pequenos como seres humanos que são, em meio a um momento específico da sua vida que é a infância.

 

Aliás, cuidar e educar são indissociáveis, inclusive durante as outras etapas da Educação Básica! Faça o exercício de pensar nas indissociabilidade quando, lá no Ensino Fundamental, o professor ensina matemática, ciências, história etc. Tanto a maneira como o professor ensina seus alunos quanto o próprio conteúdo interagem dentro de aspectos do cuidar e do educar.

Um bom exemplo é quando as crianças estão aprendendo a resolver problemas de matemática valorizando suas hipóteses, compartilhando suas ideias e aprendendo não só com o professor, mas com seus colegas. Se forem problemas, por exemplo, relacionados à comparação de preços do supermercados e consumo consciente, temos mais aprendizagens ainda a serem para serem percebidas. Estamos cuidando para que essas crianças não criem uma aversão à matemática, possibilitando que ela aprenda com o outro, permitindo a ela criar um bom relacionamento com a ciência dos números e ainda refletir sobre a sua relação com consumo.

 

Todos esses exemplos, colega, são para tentar exemplificar que, nas nossas práticas, o cuidar e o educar são realmente indissociáveis para qualquer educador. Essa reflexão perpassa a discussão sobre a Educação Integral de crianças e adolescentes, a qual enxerga o processo educacional em sua globalidade e atrelada fortemente à vida que os seres humanos vivem dentro e fora das instituições educativas.

 

Voltando a nossa discussão inicial, vivemos um período difícil em que todo professor apaixonado por sua profissão (como eu amo a minha) deve estar muito apreensivo, mas também esperançoso. Nossas escolas estão vazias, mas não foram abandonadas! Com o tempo, venceremos mais essa batalha e logo retornaremos às nossas atividades do dia a dia e nosso ano letivo vai continuar cheio da vida que será trazida pelas crianças. Nesse momento, por recomendação da Organização Mundial da Saúde, o ideal é que nossas crianças estejam em suas casas evitando aglomerações.

Pensem comigo que, até nesse momento de isolamento social, permanecemos dentro dos princípios do cuidar e educar: estamos cuidando das nossas crianças ao deixá-las em casa e educando-as sobre a existência de doenças tão sérias que fazem as pessoas evitarem o contato umas com as outras.

 

Quando voltarmos teremos muito o que conversar, muitos abraços para trocar, muitas coisas para brincar... muita vida para viver! Em breve nos veremos de novo e todo esse momento vai ficar na nossa história como mais uma lição aprendida.

A vocês, meus colegas professores e professoras, lavem bem as mãos, usem álcool em gel e evitem aglomerações! Afinal, você é muito importante para o nosso país!

Um abraço virtual, mas ainda carinhoso.

Cuidem-se e Até breve!

 

 

FONTE: Evandro Tortora

SITE: NOVA ESCOLA.ORG.BR

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